Mercado ilegal de cigarros eletrônicos cresce no Brasil e acende alerta entre adolescentes

Plantão Policial

Proibidos pela Anvisa desde 2009, dispositivos conhecidos como “vapes” seguem circulando clandestinamente; Receita Federal apreendeu quase 239 mil unidades apenas nos dois primeiros meses de 2026

O avanço do uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes tem provocado preocupação das autoridades de saúde e dos órgãos de fiscalização em todo o país. Dados divulgados em 2026 pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) apontam que quase três em cada dez jovens brasileiros, entre 13 e 17 anos, já experimentaram algum tipo de dispositivo eletrônico para fumar.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), a experimentação desses produtos aumentou de 16,8% para aproximadamente 30% em um período de cinco anos, revelando uma expansão acelerada entre o público jovem.

Além do crescimento do consumo, a circulação dos chamados “vapes” ocorre principalmente por meio do mercado clandestino, já que a venda, importação e comercialização desses equipamentos são proibidas no Brasil desde 2009.

Uso entre jovens preocupa especialistas

A médica pneumologista e professora da Afya Ipatinga, Dra. Fernanda Lima, alerta que a nicotina presente na maioria dos cigarros eletrônicos possui alto potencial de dependência e pode afetar diretamente o desenvolvimento cerebral dos adolescentes.

Segundo a especialista, o consumo pode comprometer áreas relacionadas à memória, atenção, aprendizado e controle dos impulsos. O aerossol inalado também provoca inflamações nas vias respiratórias, prejudica os mecanismos de defesa dos pulmões e aumenta a possibilidade de infecções.

“Já foram descritos casos de lesão pulmonar aguda associada ao uso de cigarros eletrônicos (EVALI), aumento do risco de doenças cardiovasculares, intoxicações e queimaduras causadas pela explosão das baterias”, explica a médica.

Ela destaca ainda que adolescentes usuários dos dispositivos apresentam maior frequência de sintomas como tosse persistente, chiado no peito, falta de ar e redução da capacidade pulmonar.

Outro fator de preocupação é que o uso dos cigarros eletrônicos pode funcionar como porta de entrada para o cigarro convencional. Estudos indicam maior probabilidade de jovens que utilizam os dispositivos migrarem posteriormente para produtos tradicionais de tabaco.

Receita apreende milhares de dispositivos por dia

Enquanto cresce o número de usuários, a fiscalização tenta conter a entrada e a distribuição ilegal desses produtos no país.

Entre janeiro e fevereiro de 2026, a Receita Federal apreendeu 238.801 cigarros eletrônicos, uma média próxima de quatro mil unidades retiradas de circulação diariamente.

Levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP) aponta que, somente em 2025, cerca de três milhões de dispositivos eletrônicos para fumar foram apreendidos em operações contra o comércio irregular.

Até maio de 2026, a Receita Federal já havia retirado do mercado mais de R$ 300 milhões em cigarros falsificados e cigarros eletrônicos proibidos.

Comércio clandestino desafia fiscalização

A coordenadora do curso de Direito da Afya Sete Lagoas, Dra. Tereza Cristina Sader Vilar, explica que o combate ao comércio ilegal enfrenta obstáculos principalmente pela venda em plataformas digitais, redes sociais e importações clandestinas.

Segundo ela, a alta procura entre adolescentes, a atuação de grupos criminosos e as dificuldades de fiscalização em larga escala favorecem a permanência desse mercado.

“O artigo 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) criminaliza vender, fornecer, entregar ou ministrar produtos capazes de causar dependência física ou psíquica a crianças e adolescentes”, destaca.

A legislação prevê pena de detenção de dois a quatro anos, além de multa, para quem fornece produtos que possam causar dependência a menores de idade.

Venda pode gerar punições

Além das consequências criminais, comerciantes envolvidos na venda ilegal podem sofrer sanções administrativas e tributárias, como multas, apreensão dos produtos, fechamento de estabelecimentos e perda de licenças.

Nos casos de importação irregular, também podem ocorrer punições relacionadas ao contrabando e à entrada de mercadorias proibidas no país.

Para a especialista, apesar da legislação brasileira ser considerada rigorosa, o principal desafio permanece na fiscalização e na interrupção da circulação desses produtos.

Alerta aos pais e responsáveis

Especialistas reforçam que sinais como tosse frequente, falta de ar, chiado no peito, dor ou aperto no tórax, queda no rendimento físico e infecções respiratórias recorrentes devem ser observados.

Nos casos de EVALI, uma lesão pulmonar grave associada ao uso dos cigarros eletrônicos, os sintomas podem surgir rapidamente, incluindo falta de ar intensa, febre, tosse, dor no peito, náuseas, vômitos e diarreia.

A recomendação das entidades médicas é que crianças, adolescentes e gestantes não utilizem cigarros eletrônicos, mesmo quando não apresentam sintomas aparentes, já que os danos ao organismo podem começar antes das manifestações clínicas.