Andréa Moreira: a voz que transforma escuta em proteção para as mulheres de Pará de Minas

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Psicóloga, escritora e presidente da Associação Por Elas, ela atua no acolhimento de mulheres vítimas de violência e defende mais investimentos em prevenção e políticas públicas

Em Pará de Minas, algumas trajetórias públicas são construídas a partir de uma única atividade. A de Andréa Moreira (@andrearcmoreira), porém, percorre diferentes caminhos que acabam se encontrando em uma mesma direção: o cuidado com as pessoas e a transformação social.
                Psicóloga, mestre em Psicologia, professora, escritora, poeta e integrante da Academia de Letras de Pará de Minas, Andréa também está à frente da Associação Por Elas (@porelasmg), entidade dedicada à promoção e à proteção dos direitos das mulheres. É nessa frente que sua atuação ganhou uma dimensão ainda mais ampla, especialmente no enfrentamento da violência contra meninas e mulheres.
                A trajetória não começou com a criação da associação. Segundo Andréa, a preocupação com questões sociais e com o universo feminino acompanha sua formação profissional desde os primeiros anos de carreira.
                Formada em Psicologia pela PUC Minas, em 2006, ela concluiu, em 2011, o mestrado em Psicologia pela mesma instituição. Sua dissertação estudou os processos de subjetivação relacionados à rede de cuidados humanizados no momento do parto. O trabalho acadêmico já colocava a mulher, sua experiência, sua subjetividade e as relações de cuidado no centro de suas reflexões.
                Foi justamente a experiência da escuta psicológica que, segundo ela, revelou uma realidade que muitas vezes permanece escondida dentro das famílias.
“Comecei a atender muitas mulheres e, dentro dessa escuta, comecei a perceber que sempre apareciam casos que tinham alguma coisa relacionada à violência”, relata.
                Os episódios envolviam diferentes formas de violência, inclusive situações vividas durante a infância e a adolescência. A constatação de que muitas mulheres carregavam essas marcas silenciosamente acabou reforçando em Andréa a necessidade de ampliar sua atuação para além do consultório.

Da Psicologia ao Projeto Por Elas

                Um dos momentos decisivos dessa trajetória ocorreu quando Andréa teve contato acadêmico com trabalhos voltados à proteção de vítimas de violência. Ela cita especialmente a influência da professora Elza de Mello Machado, da Universidade Federal de Minas Gerais, cujo trabalho despertou seu interesse pela construção de mecanismos de proteção e acolhimento.
                Posteriormente, durante sua atuação na Faculdade de Pará de Minas (FAPAM), Andréa desenvolveu um projeto no curso de Psicologia. A iniciativa acabou encontrando outro projeto, desenvolvido na área do Direito pelo professor Francisco Vilas Boas.
A união das duas propostas deu origem ao projeto Por Elas, aproximando estudantes de Psicologia e Direito em torno de uma mesma questão: a proteção e o enfrentamento da violência contra as mulheres.
                O projeto acadêmico cresceu, ganhou repercussão e, posteriormente, transformou-se em uma organização da sociedade civil. Nascia, assim, a Associação Por Elas.
                Para Andréa, essa transformação representou mais do que a criação de uma entidade. Significou a possibilidade de levar para a comunidade uma experiência construída dentro da universidade.

                Um dos principais conceitos defendidos por Andréa é o de acolhimento

Na prática, isso significa compreender que uma mulher vítima de violência nem sempre chega preparada para denunciar, abandonar o relacionamento ou tomar imediatamente uma decisão definitiva. “Nem sempre essa mulher quer procurar a delegacia. Nem sempre essa mulher quer procurar o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social). Muitas vezes ela quer ser ouvida”, explica.
É nesse intervalo entre a violência sofrida e a decisão sobre o que fazer que a Associação Por Elas procura atuar.
                O trabalho envolve escuta, orientação e encaminhamento, respeitando a decisão da mulher. Quando necessário e quando ela deseja, o caso pode ser direcionado para serviços específicos da rede de proteção, como a Delegacia da Mulher, o CREAS e serviços de saúde.

                A lógica, segundo Andréa, é não transformar o acolhimento em uma nova forma de pressão. A mulher precisa primeiro compreender que não está sozinha.
Esse aspecto também se relaciona diretamente com um dos grandes problemas enfrentados no combate à violência: a subnotificação.
                Muitas mulheres sofrem agressões, mas não chegam às autoridades. Medo, dependência emocional ou financeira, preocupação com os filhos, vergonha, ameaças e a própria dificuldade de reconhecer que estão vivendo uma situação de violência podem impedir a denúncia.
                Por isso, para Andréa, abrir uma porta de escuta pode representar o primeiro passo para que essa mulher recupere a capacidade de decidir sobre a própria vida.

Uma parceria que aproximou a sociedade civil do Legislativo

                Essa proposta ganhou uma nova dimensão em Pará de Minas com a aproximação entre a Associação Por Elas e a Procuradoria da Mulher da Câmara Municipal.
                A Procuradoria foi criada pela Resolução nº 587, de 13 de novembro de 2024, com a missão de contribuir para o enfrentamento das discriminações e violências contra as mulheres, receber e encaminhar denúncias, fortalecer políticas públicas e promover ações educativas.

                Em agosto de 2025, Câmara e Associação Por Elas formalizaram um Termo de Cooperação. A parceria passou a prever ações de proteção, orientação, prevenção e enfrentamento à violência, além da disponibilização de profissionais para acolhimento psicológico e jurídico.

                Para Andréa, a parceria representa a criação de mais uma porta de entrada para mulheres que precisam de ajuda.
                Ela explica que, dentro dessa estrutura, estagiárias da FAPAM participam da triagem e, sob supervisão, fazem o encaminhamento aos profissionais voluntários da Associação Por Elas.
                O trabalho é desenvolvido dentro dos protocolos institucionais e das normas aplicáveis à formação profissional. Mais do que uma estrutura burocrática, a proposta é criar um ambiente no qual a mulher possa falar.
“É uma mão que se estende no momento que ela precisa”, destaca Andréa.

                “Apesar do trabalho da Procuradoria da Mulher ser muito importante, ser mais uma porta de entrada, a gente sabe que precisa de recursos financeiros, precisa de políticas públicas mais voltadas para o tema”_explica.
                Um exemplo é uma cartilha educativa sobre prevenção da violência, elaborada por ela durante sua experiência na FAPAM, com ilustrações da artista pará-minense Luma Laje.
Sendo que a intenção é levar o material às escolas públicas e particulares do município.
Ou seja, é preciso mais recursos e investimentos.

                Por isso, a Associação Por Elas também desenvolve palestras e ações educativas em empresas e instituições. Andréa cita atividades realizadas junto a empresas e comissões internas, abordando temas relacionados ao cuidado, à saúde emocional e às relações humanas.

A marca de duas tragédias

                Ao avaliar a realidade de Pará de Minas, Andréa reconhece avanços, mas também fala sobre acontecimentos que deixaram marcas profundas na cidade. Ela cita os assassinatos de Vanessa e Rayane como episódios que, segundo sua avaliação, reforçaram a necessidade de manter a discussão sobre violência contra a mulher no centro do debate público. Para ela, essas mortes não podem ser esquecidas.                 Precisam servir como alerta para que a sociedade compreenda que a violência doméstica, psicológica, sexual, patrimonial e moral não é um problema privado.
Por isso, o acolhimento, na visão de Andréa, precisa ser acompanhado de encaminhamento responsável.
E, ao final da entrevista, quando questionada sobre o futuro, Andréa escolhe uma palavra: esperança.
Não como uma espera passiva, mas como disposição para continuar trabalhando.
“Esperança de que empresas invistam em projetos sociais. De que o poder público fortaleça políticas de prevenção. De que novas gerações sejam educadas para relações mais respeitosas. De que as instituições trabalhem de maneira integrada.
E, sobretudo, esperança de que uma mulher vítima de violência saiba que existe uma porta que pode procurar” finaliza Andréa Moreira.