Ângela Queiroz, mentora de líderes, empresas e especialista na NR-1 explica mudanças, riscos psicossociais e como as empresas devem se preparar

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As mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) ampliaram a responsabilidade das empresas em relação ao gerenciamento dos riscos ocupacionais e colocaram a saúde mental no centro das discussões sobre segurança e qualidade de vida no ambiente de trabalho. Entre os pontos que ganharam destaque está a necessidade de identificar e mapear fatores de risco psicossociais relacionados à rotina profissional.

                Em entrevista ao DIÁRIO, a especialista em NR-1 e mentora de líderes e empresas, Ângela Queiroz (@angelaqueiroozz) explica os principais aspectos da atualização e destacou que a adequação não deve ser tratada apenas como uma obrigação burocrática ou uma forma de evitar penalidades.

                Segundo a especialista Angela, a NR-1 existe desde 1978 e, originalmente, estava voltada aos riscos ocupacionais. Com a atualização da norma, passaram a ganhar espaço também os fatores psicossociais presentes no ambiente de trabalho.

                “A NR-1 já existe desde 1978. Até então, era uma norma voltada para os riscos ocupacionais. Porém, a partir do ano passado, diante do grande avanço no número de pessoas adoecidas pelo trabalho, segundo o Ministério do Trabalho, e do aumento dos afastamentos, que chegaram a quase meio milhão de pessoas, a norma foi atualizada”, explica.
                A especialista ressalta que a mudança não significa que as empresas precisem necessariamente contratar um psicólogo para cada funcionário. A proposta da norma, segundo ela, está relacionada à análise do ambiente e das condições de trabalho.
                “Percebo que muitas pessoas têm uma dúvida: ‘Então, agora, as empresas precisam de um psicólogo?’. Não. A NR-1 atua no ambiente de trabalho, e não diretamente no indivíduo”, esclarece.

Diagnóstico é apenas o primeiro passo

                Para Ângela, um dos principais desafios atualmente é fazer com que as empresas compreendam que a atualização da NR-1 não termina na elaboração de um diagnóstico.
De acordo com a especialista, o processo envolve duas etapas fundamentais: identificar os fatores de risco presentes no ambiente profissional e, posteriormente, desenvolver ações contínuas para reduzir ou eliminar esses riscos.

                Entre os fatores que devem ser observados estão a sobrecarga ou a subcarga de trabalho, falta de reconhecimento e valorização profissional, trabalho remoto ou isolado, assédio moral, verbal ou sexual, problemas de comunicação, falta de organização e ausência de clareza sobre as funções e responsabilidades de cada integrante da equipe. “Não adianta apenas fazer o diagnóstico. Fazer o diagnóstico não significa, por si só, atualizar a norma. A atualização acontece quando são levantados os riscos, mapeado o que pode estar adoecendo as pessoas e identificadas formas de intervenção”, afirma.
                Nesse processo, a participação dos proprietários, gestores e lideranças é considerada fundamental.
                A rotina profissional pode exercer influência significativa sobre o bem-estar dos trabalhadores. Pressão por resultados, cobrança, dificuldades de relacionamento, falta de organização e problemas de comunicação são alguns dos elementos que podem contribuir para um ambiente prejudicial à saúde.
                Ângela destaca que muitas pessoas passam grande parte do dia no trabalho e, por isso, as condições encontradas nesse ambiente podem potencializar situações de adoecimento: “Imagine conviver durante oito ou dez horas com pessoas que talvez tenham dificuldades de relacionamento, em uma empresa que não possui organização, que não sabe se comunicar ou que não valoriza o funcionário. Tudo isso pode afetar e potencializar o adoecimento das pessoas”.
                A especialista, entretanto, ressalta que os problemas de saúde não estão necessariamente relacionados exclusivamente ao trabalho, já que as pessoas também enfrentam dificuldades em outras áreas da vida. A questão, segundo ela, é compreender de que maneira o ambiente profissional pode contribuir para agravar determinadas situações.

Toda empresa com funcionário registrado precisa estar atenta

                Outro ponto destacado durante a entrevista é que a adequação à NR-1 não está condicionada a um número elevado de funcionários. Segundo Ângela, conforme orientação do Ministério do Trabalho mencionada na entrevista, empresas com CNPJ e a partir de um funcionário registrado precisam realizar a atualização prevista na norma.
A partir disso, devem ser identificados os fatores de risco existentes e estabelecidas medidas para enfrentá-los.
                A mentora Ângela alerta que algumas empresas acabam contratando uma análise, recebem um diagnóstico e deixam o projeto sem continuidade. Para ela, essa postura reduz o potencial da própria norma.
“O primeiro passo é identificar quais são esses fatores de risco. O segundo é desenvolver ações e programas contínuos que possam mitigar esses fatores”, explica.
                Mais do que cumprir uma determinação legal, a atualização da NR-1 pode representar uma oportunidade para as empresas reverem seus processos internos e fortalecerem sua cultura organizacional.
                Ângela explica que os riscos psicossociais estão diretamente relacionados à forma como a empresa funciona diariamente: “A comunicação, relacionamento entre líderes e equipes, regras, organização, reconhecimento e definição de responsabilidades.
Os fatores de risco psicossociais estão muito associados à cultura da empresa. E o que é a cultura de uma empresa? É aquilo que ela vive todos os dias”.
                Nesse sentido, a adequação pode contribuir também para o desenvolvimento da organização.
                Quando a empresa identifica problemas e passa a estabelecer regras mais claras, fortalecer sua missão e definir seus valores, cria-se uma identidade organizacional mais estruturada.

                “Quando começamos a construir e renovar essa cultura, estabelecendo o que pode e o que não pode, o que está de acordo com a empresa e o que não está, fortalecemos ainda mais o propósito e a missão da organização”, destaca.

Prevenção precisa ser contínua

                Para Ângela, um dos principais pontos de atenção está na continuidade das ações. O diagnóstico deve ser encarado como o início de um processo, e não como seu encerramento.
A especialista afirma que ainda existem dúvidas entre empresários sobre a forma correta de implementar e acompanhar as mudanças, principalmente porque o tema é relativamente novo para muitas organizações.
“Não se deve ficar apenas no diagnóstico. É necessário realizar as intervenções”, reforça.

                Ela também considera importante que as empresas tenham profissionais tecnicamente capacitados para conduzir o processo. Segundo a especialista, o Ministério do Trabalho estabelece que o diagnóstico pode ser realizado por profissional tecnicamente qualificado.
                Ao falar sobre a importância da saúde mental no ambiente profissional, Ângela defende uma mudança de olhar por parte das empresas.
Para ela, o trabalhador não deve ser enxergado apenas como alguém que ocupa determinado cargo ou possui um número de registro.

                “Quando um funcionário chega à empresa, junto com ele chega um pai de família, uma mãe, uma filha, uma pessoa que deixou alguém em casa ou que está passando por uma dificuldade, seja financeira, de relacionamento ou relacionada à saúde física. Essa pessoa não está ali apenas com o crachá. Ela está levando consigo toda a sua história”, afirma.
                Na avaliação da especialista, criar espaços de diálogo, ouvir os funcionários e compreender o que funciona ou precisa ser melhorado pode contribuir para um ambiente mais saudável.
                Ângela lembra que a atualização entrou em vigor em 26 de maio de 2025 e que foi concedido um período para que as empresas pudessem se adequar.
Na avaliação dela, ainda existe uma procura menor do que a necessária, principalmente pela falta de informação sobre o assunto.
                A especialista acredita que o processo deverá ser aperfeiçoado ao longo do tempo, à medida que o Ministério do Trabalho avance na organização, orientação e avaliação da aplicação da norma.
“Acredito que essa norma veio para acrescentar muito à vida das pessoas”, afirma.

                Segundo ela, um trabalhador que encontra um ambiente organizado, no qual é respeitado, reconhecido e valorizado, tende a retornar para casa de maneira diferente. “Vejo a NR-1 como uma oportunidade para as empresas desenvolverem pessoas, fortalecerem a saúde mental e contribuírem para o bem-estar não apenas dos colaboradores, mas da sociedade em geral”, conclui.

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