França decreta toque de recolher pela segunda noite consecutiva em meio a protestos

Pará de Minas

Restrições atingem áreas estratégicas de Paris e também são adotadas em Lyon e Marselha. Governo prepara operação de segurança de grande escala diante de novas manifestações previstas para sábado (24).

Depois que eles saquearam as lojas…

A França intensificou as medidas de segurança diante da onda de protestos que atinge o país há mais de um mês. Pela segunda noite consecutiva, autoridades determinaram toque de recolher em áreas de Paris, entre as 23h e as 6h, nos horários locais, desta terça-feira (20) para quarta-feira (21). A medida também foi adotada em outras grandes cidades, como Lyon e Marselha, enquanto o governo se prepara para uma nova jornada de manifestações prevista para sábado (24).

Na capital francesa, as restrições abrangem a Place de la République e a região comercial de Les Halles, consideradas pontos centrais dos protestos registrados no último fim de semana. A polícia também proibiu concentrações não autorizadas, a partir das 20h desta terça-feira, em locais estratégicos, incluindo a avenida Champs-Élysées, estações ferroviárias e as sedes da Presidência da República e do Parlamento.

O toque de recolher já havia sido aplicado na segunda-feira (19). Segundo as autoridades, a medida contribuiu para restabelecer a ordem durante a noite e permanecerá em vigor enquanto for considerada necessária.

Medidas se espalham por outras cidades

Em Lyon, uma das principais cidades francesas, o toque de recolher no centro foi renovado, das 21h às 6h. De acordo com o governo local, não foram registrados incidentes durante a noite de segunda-feira.

Já em Marselha, a segunda maior cidade do país, as autoridades determinaram restrições à circulação de menores de idade desacompanhados, com início na noite desta terça-feira (20).

As medidas refletem a preocupação das autoridades com a possibilidade de novos confrontos, após episódios de violência, depredações e saques registrados durante as manifestações recentes.

Governo prepara operação de segurança

Diante da convocação de novos protestos para sábado (24), o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, anunciou que o governo prepara uma operação de segurança de grande escala.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, informou à Assembleia Nacional que militares da operação Sentinelle também passarão a proteger locais considerados sensíveis. A iniciativa foi criada para combater o terrorismo e reforçar a segurança após os ataques promovidos pelo grupo Estado Islâmico em 2015.

Até o momento, o governo não informou quantos agentes de segurança serão mobilizados para a operação.

A nova jornada de manifestações foi convocada por sindicatos estudantis e grupos ligados ao movimento dos Coletes Amarelos, que ganhou projeção nacional em 2018 e 2019, durante os protestos contra o aumento dos preços dos combustíveis.

Protestos começaram nas escolas

A onda de manifestações teve início em setembro, em escolas de ensino médio nos arredores de Paris. Os estudantes reivindicavam melhores condições de ensino, denunciando a falta de professores, a ausência de substitutos, as turmas superlotadas e os problemas de infraestrutura nas instituições públicas.

Com a adesão de professores, sindicatos e outros setores da sociedade, as mobilizações ampliaram suas pautas e passaram a incluir críticas à desigualdade social, à insuficiência dos investimentos públicos e à deterioração dos serviços oferecidos à população.

O governo francês, por sua vez, argumenta que enfrenta dificuldades para ampliar os gastos públicos diante de um déficit fiscal superior a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) e de uma dívida pública elevada. Nesse cenário, a administração tem defendido medidas de contenção de despesas e a priorização de outras áreas, como a defesa.

Confrontos e episódios de violência

As manifestações realizadas em cidades como Paris, Lyon, Nantes e Estrasburgo foram marcadas por confrontos entre manifestantes e forças policiais. Em diferentes ocasiões, os agentes utilizaram gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral para dispersar multidões.

Em 5 de outubro, um estudante de 15 anos sofreu a amputação de uma das mãos em Lens, no norte da França, após pegar uma granada de efeito moral que explodiu em seguida. Segundo o governador de Pas-de-Calais, François-Xavier Lauch, o adolescente recebeu atendimento médico e não corria risco de vida.

No dia seguinte, o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagyoko, foi atingido por gás de pimenta enquanto tentava proteger estudantes durante uma manifestação. Ele precisou receber atendimento para aliviar os efeitos do produto nos olhos.

Os episódios aumentaram a tensão em torno da atuação policial e da resposta das autoridades aos protestos.

Fim de semana teve milhares de detenções

As manifestações de 17 e 18 de outubro foram apontadas como algumas das mais violentas dos últimos anos no país. Segundo os números divulgados no material de origem pelo Ministério do Interior, mais de 500 mil pessoas participaram dos atos, a maioria de forma pacífica.

Durante os confrontos, uma pessoa morreu, mais de 500 policiais ficaram feridos e mais de 2 mil pessoas foram detidas. Também foram registrados saques e danos a aproximadamente 1,5 mil lojas e estabelecimentos comerciais.

Para conter os distúrbios, forças policiais utilizaram gás lacrimogêneo e canhões de água. Também houve registros de agressões contra manifestantes por agentes equipados com cassetetes.

Com novas manifestações previstas para sábado, o governo francês busca reforçar a segurança e evitar a repetição dos episódios de violência. A mobilização, entretanto, continua impulsionada por reivindicações que vão além das condições de ensino e refletem um descontentamento mais amplo com a situação econômica e social do país.